Dois princípios para escrever bastante bem

Já li e reli uns cinquenta livros sobre a arte e o ofício de escrever, não apenas porque tais livros são úteis a um jornalista, mas principalmente porque o assunto me fascina. William Strunk Jr., por exemplo, me ensinou a usar coloquialismos e gírias sem colocá-los entre aspas. “Se você usa um coloquialismo ou uma gíria”, escreveu em The Elements of Style, “simplesmente use-o; não atraia a atenção para ele ao colocá-lo entre aspas. Fazer isso é se postar num pedestal, como se convidasse o leitor a se juntar a você no seleto Clube dos Sabichões.” Já E. B. White me ensinou a pensar duas vezes antes de recorrer a palavras e expressões fora da curva. “Evite o que é elaborado, pretensioso, exclusivo, fofinho”, escreveu no mesmo The Elements of Style. “Não se sinta tentado a usar uma palavra de 20 dólares quando tem à mão uma de 10 centavos.” Mais à frente, White completa: “Jamais chame um estômago de bucho, a não ser que tenha uma boa razão.” Nesta postagem, quero tratar dos dois princípios que uso com maior frequência.

Princípio #1. Faça coincidir personagem com sujeito, ação com verbo.

O mesmo princípio, com mais palavras para ficar mais fácil de entender: Faça coincidir o personagem da história que está contando com o sujeito da frase que está escrevendo, e a ação que esse personagem está realizando com o verbo da frase que está escrevendo. Mais esquematicamente: personagem = sujeito; ação = verbo. Escreva isso num pedaço de papel e o prenda na parede à sua frente, para que, sempre que levantar os olhos do teclado, lembre-se do esquema.

Vamos examinar juntos uns poucos exemplos, tirados do primeiro parágrafo de Dom Casmurro, de Machado de Assis.

(A) “Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da Lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.”

O personagem da primeira frase é o próprio narrador, e o sujeito do três verbos “vindo”, “encontrei”, e “conheço” é “eu”, que denota o narrador. Personagem = sujeito. As ações que o personagem está realizando na primeira frase são: ele está viajando de trem da cidade para o Engenho Novo; ele encontrou um rapaz do bairro em que mora; esse rapaz o narrador conhece só de vista, mas na verdade o reconhece principalmente por conta do chapéu peculiar. Os verbos denotam, adequadamente, tais ações: “vindo”, “encontrei”, “conheço”. Ação = verbo.

Se Machado fosse um autor menos competente, talvez não fizesse coincidir personagem com sujeito, ação com verbo. Talvez escrevesse a primeira frase assim:

“Uma noite dessas, enquanto o trem me levava da cidade para o Engenho Novo, um encontro sucedeu-se entre mim e um rapaz aqui do bairro, cuja vista e cujo chapéu tanto fizeram que me obrigaram a reconhecê-lo.”

Agora o sujeito dos verbos “me levava”, “sucedeu-se”, e “tanto fizeram que me obrigaram” não é mais o personagem da história, o narrador; são “o trem”, “um encontro”, “a vista e o chapéu”. O trem até que é um bom personagem, pois é concreto e animado — ele se movimenta, apita, freia; mas “um encontro” e “a vista e o chapéu” são personagens de qualidade inferior, pois excessivamente estáticos e impalpáveis. Além disso, não coincidem com o personagem da história, que é o próprio narrador. O leitor não sabe direito em que deve dar ênfase: a história da primeira frase é sobre um trem, sobre um sucedido (um encontro), ou sobre a compleição de uma pessoa e a natureza peculiar de seu chapéu? Essa é a questão: faça coincidir personagem com sujeito, ação com verbo, pois o leitor espera que o personagem da história coincida com a maioria dos sujeitos, e que as ações que esse personagem realiza coincidam com a maioria dos verbos.

Vamos à segunda frase da passagem. O personagem agora é o rapaz de chapéu peculiar, e o sujeito de todos os verbos é “ele”, que denota o rapaz. Personagem = sujeito. As ações que o personagem está realizando são: ele cumprimentou o narrador, sentou-se a seu pé (isto é, sentou-se na poltrona à frente do narrador, como é comum em trens), falou da Lua e dos ministros, e recitou versos ao narrador. Os verbos são todos adequados: “cumprimentou-me”, “sentou-se”, “falou”, “recitou-me”. Ação = verbo. Mais uma vez, veja como Machado poderia ter mal escrito essa afirmação:

“Houve entre mim e o rapaz uma sessão de cumprimentos. Uma vez que sua figura estava acomodada na poltrona à minha frente, a Lua e os ministros imiscuiram-se na conversação, e os versos do rapaz acabaram sendo recitados.”

Agora os sujeitos são “uma sessão de cumprimentos”, “sua figura”, “a Lua e os ministros”, “os versos do rapaz”. Os verbos são todos excessivamente estáticos ou genéricos: haver, estar, ser. “Imiscuir-se” até que é um bom verbo, mas está mal usado, pois como a Lua e os ministros podem ambos imiscuir-se numa conversação? Como esse fenômeno tão estranho ocorre? Mais uma vez, o leitor não tem elementos para saber em que deve se concentrar, pois cada verbo tem um sujeito distinto, e nenhum dos sujeitos corresponde ao personagem da história, que, no caso da segunda frase, é o rapaz do chapéu. Visto que o verbo “imiscuir-se” é chamativo, talvez leve o leitor, por um momento, a dar atenção desmedida à Lua e aos ministros, que não têm peso na história.

Acho desnecessário continuar com essa análise detalhada. A terceira frase serve apenas para passar duas informações por meio de verbos de ligação (“ser”, nos dois casos), uma sobre o tempo de viagem, outra sobre a possível qualidade dos versos. Em casos assim, o leitor pode fazer a análise substituindo os verbos de ligação pelo sinal de igual: “viagem = curta”, e “versos = talvez não inteiramente maus”. Quanto à quarta frase, vem em duas partes, uma em que o personagem é o próprio narrador, outra em que o personagem é o rapaz do chapéu e dos versos; os sujeitos correspondem aos personagens, e os verbos correspondem às ações que tais personagens realizam.

Talvez o leitor Desconfiado tenha agora uma objeção: a de que minha versão ruim da passagem de Machado é ruim demais. “Ninguém escreve tão mal assim”, Desconfiado me diz. Ao que respondo: Mentira! Mentira! Mentira! Quem não se acostumou a pensar em personagem = sujeito, ação = verbo, e além disso não escreve bem por dom da Fortuna, em geral escreve confusamente, sempre usando substantivos quando deveria usar verbos, sempre colocando o personagem da história em segundo plano, ou sumindo com ele completamente. Estou olhando agora para uma apostila do Senac; veja a seguinte frase:

(B) “Um fator importante que não poderá ser esquecido é a contratação de um contador especializado no ramo de restaurantes.”

Se o redator conhecesse o princípio #1, teria escrito alguma coisa parecida com uma das duas versões abaixo:

(B’) “Não se esqueça de algo importante: contrate um contador especializado no ramo de restaurantes.”

(B’’) “O empresário deve se lembrar de algo importante: contratar um contador especializado no ramo de restaurantes.”

A versão (B’) trata o leitor por “você”; a versão (B’’) é um pouco mais impessoal, pois trata o leitor como sendo “o empresário”.

É fácil se esquecer do princípio #1 e escrever mal. Isso porque, quando o redator imagina a cena que gostaria de colocar no papel, em geral usa substantivos e adjetivos para rotular o que o personagem da história está fazendo. Na imaginação, vê um menino botar uma bolinha de gude num estilingue, esticá-lo, mirar a janela da casa do vizinho, e quebrá-la com uma estilingada perfeita. Mas as palavras que primeiro lhe vêm à mente são do tipo “travessura”, “maldade”, “inconveniente”, “prática”, “perigo”, “indiferença”, “aventura”, “inconsequência”. São substantivos e adjetivos com os quais o redator julga o personagem e suas ações; em vez de descrevê-los, aplica-lhes rótulos. Talvez a primeira versão do texto saia assim:

(C) “As travessuras maldosas de uma infância masculina ociosa se revelam em estilingadas, bolinhas de gude, janelas quebradas, vizinhos adultos magoados uns com os outros.”

Mas você está contanto uma história. Logo, a cada frase, conte uma história: personagem = sujeito, verbo = ação.

(C’) “Quando eu era pequeno, os meninos andávamos horas pelas ruas e vielas do bairro, depois da escola e antes do banho, vagueando em grupo. Talvez nossos pais nos davam tempo livre em excesso; e talvez ‘bando’ seja palavra melhor que ‘grupo’. Competíamos muito: quem cuspia mais longe, quem falava mais alto, quem chegava primeiro, quem contava a piada mais porca, quem construía o melhor estilingue com tripa de mico. Mas construir o melhor estilingue não bastava para dar a um menino uma semana de glória. A mira tinha de ser impecável: praticávamos tentando acertar aquela mancha naquela árvore, aquele pardalzinho naquele fio. Cedo ou tarde, alguém lançava um desafio: quem teria a coragem de quebrar uma das janelas da Dona Joana, a vizinha mais chata das redondezas? Uma vez, levei um susto ao descobrir que tinha sido o primeiro a se prontificar.”

A passagem (C) é minha, mas Machado de Assis também faz personagem = sujeito, verbo = ação, e consistentemente. Mais um exemplo, este de Memórias Póstumas de Brás Cubas:

(D) “Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim [equilibrista], que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.”

Não apenas Machado: todos os grandes da literatura fazem o mesmo. Veja Graciliano Ramos em Vidas Secas:

(E) “Fabiano procurou em vão perceber um toque de chocalho. Avizinhou-se da casa, bateu, tentou forçar a porta. Encontrando resistência, penetrou num cercadinho cheio de plantas mortas, rodeou a tapera, alcançou o terreiro do fundo, viu um barreiro vazio, um bosque de catingueiras murchas, um pé de turco e o prolongamento da cerca do curral. Trepou-se no mourão do canto, examinou a catinga, onde avultavam as ossadas e o negrume dos urubus. Desceu, empurrou a porta da cozinha. Voltou desanimado, ficou um instante no copiar, fazendo tenção de hospedar ali a família. Mas chegando aos juazeiros, encontrou os meninos adormecidos e não quis acordá-los. Foi apanhar gravetos, trouxe do chiqueiro das cabras uma braçada de madeira meio roída pelo cupim, arrancou touceiras de macambira, arrumou tudo para a fogueira.”

O sujeito de quase todos os verbos é “Fabiano”. Nos vários pontos nos quais um sujeito diferente talvez se intrometesse, Graciliano foi hábil o bastante para transformar verbos em substantivos ou adjetivos: o chocalho não toca, mas há um toque de chocalho; a porta não resiste, mas há uma resistência; as plantas não morrem, mas há plantas mortas; as catingueiras não murcham, mas há catingueiras murchas; os meninos não adormecem, mas há meninos adormecidos; o cupim não rói a madeira, mas há madeira roída pelo cupim. Fazendo assim, Graciliano força o leitor a se concentrar no personagem principal, que é Fabiano, e nas ações que esse personagem realiza, na forma de verbos cujo sujeito é “Fabiano”.

Até Guimarães Rosa, que escreve daquele jeito tão extravagante, toma cuidado para equilibrar bem sua quota de personagem = sujeito, ação = verbo. Os dois parágrafos a seguir são um trechinho de Grande Sertão: Veredas.

(F) “— ‘Certo de que, nesta vida? Pois eu nem costumo nunca xingar ninguém de filho daquela ou dessaí por receio de que seja mesmo verdade…’

“Assim a eles eu disse. Tanto enquanto riam, apreciando me ouvir, eu contei a estória de um rapaz enlouquecido devagar, nos Aiais, não longezinho da Vereda-da-Aldeia: o qual não queria adormecer, por um súbito medo que nele deu, de que alguma noite pudesse não saber mais como se acordar outra vez, e no inteiro de seu sono restasse preso.”

Rosa poderia ter escrito “um rapaz enlouqueceu devagar”, tornando o rapaz o sujeito inequívoco do verbo, mas a gente não enlouquece porque quer; a gente enlouquece porque o mundo nos obriga a enlouquecer, e por isso “um rapaz enlouquecido devagar”. Da mesma forma, o rapaz poderia ter sentido um súbito medo, mas ele não é propriamente o agente de seus medos. Os medos nos assaltam. Os medos se erguem dentro de nós por mecanismos ancestrais, e por isso “um súbito medo que nele deu”. Rosa merece ser lido com atenção porque ele faz isso excepcionalmente bem: quando o personagem é de fato agente, quando os motivos para sua ação estão sob o domínio de sua vontade, o personagem é o sujeito inequívoco de verbos de ação; porém, quando o personagem é mais paciente que agente, Rosa procura alternativas ao esquema personagem = sujeito, verbo = ação. Às vezes, o personagem vira objeto de verbos. Às vezes, vira sujeito de verbos que não expressam ação de vontade própria, mas coação sob a máquina do mundo — e daí “o rapaz no inteiro de seu sono resta preso”.

Princípio #2. Deixe o que escreveu sugerir o que escreverá em seguida.

Quando desejo escrever alguma coisa, tomo em primeiro lugar a iniciativa de criar um arquivo de notas de leitura. Para esta postagem, por exemplo, criei o arquivo “Notas de Leitura_Dois Princípios”. Passo a ler sobre o assunto, às vezes entrevisto uma pessoa ou mais de uma; e sempre que vejo algo ou ouço algo que talvez venha a usar, escrevo uns lembretes para mim mesmo no tal arquivo.

Cedo ou tarde sinto que tenho material suficiente para escrever. Imprimo o arquivo e o leio várias vezes, tomando notas com uma caneta vermelha. E daí tento escrever a primeira frase.

Escrevo várias primeiras frases, e as leio em voz alta. Uma delas me parece boa. Apago todas as outras e deixo só aquela boa frase no papel. E daí tento escrever a segunda frase.

Escrevo várias segundas frases. Leio a primeira mais a segunda frase #1. Depois leio a primeira mais a segunda frase #2. E assim por diante, até que uma dupla de frases me parece a melhor entre todas as duplas.

Vou assim por diante escrevendo cada frase, cada parágrafo: devagar e sempre, pensando constantemente no melhor jeito de usar o princípio #1, personagem = sujeito, ação = verbo.

Às vezes, empaco. O texto ainda não acabou, estou tentando escrever a frase n, mas não acho uma frase n que combine com tudo o que escrevi antes. Apago tudo e recomeço; desta vez, contudo, escolho outra frase como primeira frase, de preferência completamente diferente da frase que escrevi da primeira vez. Mesmo que eu tenha de recomeçar umas poucas vezes, o processo quase sempre termina. Já escrevi milhares de textos assim. Acontece, contudo, que às vezes me canso de recomeçar e abandono o texto. Se não consigo terminá-lo, significa que falta alguma coisa importante, e essa falta é sinal de que não tenho verdadeiramente o que dizer sobre aquele assunto. Espero; tenho de viver mais.

Vi o método desse princípio #2 pela primeira vez num livro de William E. Blundell, jornalista do The Wall Street Journal, cujo título é The Art and Craft of Feature Writing [A Arte e o Ofício de Escrever Reportagens Especiais]. Blundell compara o ofício de escrever a dirigir um carro à noite. Tenho noção de meu destino, e por isso sigo as placas de sinalização corretamente. Mas enxergo só um pouquinho da estrada à frente — é aquele pouquinho de estrada iluminado pelos faróis. Não sei mais nada além daquilo que está bem à minha frente, iluminado pelos faróis; e para descobrir como é a estrada 20 quilômetros à frente, tenho de dirigir com cuidado até lá.

Depois vi esse mesmo método num livro de Stephen King, On Writing: A Memoir of the Craft. King compara o ato de escrever a desenterrar um fóssil. Não posso desenterrá-lo de uma vez, por exemplo com uma escavadeira motorizada, pois vou quebrá-lo em mil pedaços. Antes, devo desenterrá-lo devagar, com instrumentos pequenos e delicados, limpando tudo constantemente com um pincel de pelos macios. Conforme vou expondo as partes do fóssil, descubro onde mais devo cavar, sempre devagar, sempre tomando cuidado. É assim que King escreve seus romances: ele começa com a primeira frase e vai devagar, frase por frase, desenterrando a história com delicadeza para não quebrá-la.

Por fim, vi esse método num filme sobre o escritor Ernest Hemingway, Hemingway & Gellhorn (2012), no qual o ator Clive Owen interpreta Hemingway. Em certa cena, Hemingway está escrevendo de pé, num quarto de hotel, com a máquina de escrever sobre uma cômoda alta. Ele datilografa uma frase, duas frases, e daí arranca o papel da máquina e o joga no chão sem amassá-lo. Repete: escreve uma frase, duas frases, três frases, quatro frases, e daí de novo arranca o papel da máquina e o joga no chão sem amassá-lo. E desse jeito ele segue: em pouco tempo, o chão do quarto fica coberto de folhas de papel semidatilografadas. Hemingway está tentando escrever um texto da primeira frase à última, deixando o que já escreveu sugerir o que escreverá em seguida e, quando o método não dá certo, arranca a página da máquina de escrever e recomeça.

Pense bem no assunto por um momento. Na verdade, é mais provável que use os dois princípios na ordem inversa: (1) Deixe o que escreveu sugerir o que escreverá em seguida; e, a cada frase, (2) Faça coincidir personagem com sujeito, ação com verbo. Essa inversão é natural. A ordem com que aprendemos a usar nossas ferramentas nem sempre é a ordem com que devemos usá-las. {Fim}



Observações:

1. No primeiro parágrafo, escrevi “fora da curva” para classificar o que White chama de “elaborado, pretensioso, exclusivo, fofinho”. Mas “fora da curva” não é um termo elaborado ou pretensioso? Não num blogue destinado a quem gosta de matemática. Suponho que todos os leitores deste blogue têm noção do que é um ponto fora da curva.

2. Atenção ao narrador de Dom Casmurro: ele é personagem do romance, e você não deve confundi-lo com o autor, Machado de Assis. Na verdade, o autor não aparece em nenhuma linha do romance — ele é pura e simplesmente autor. Digo isso porque já vi palestras sobre Dom Casmurro nas quais o palestrante disse que o autor Machado de Assis se revela na história por meio de truques metalinguísticos. Nada disso. Machado fez seu personagem Bento Santiago = Dom Casmurro recorrer a metalinguagem para trair certas vacilações emocionais com relação à estória que (Bento) está contando. Aliás, só existe um personagem em Dom Casmurro, que é o próprio Dom Casmurro, isto é, Bento Santiago já velho, olhando para a vida que levou. Todos os outros personagens, incluindo Capitu e o menino Bentinho, são conjuntos de afirmações que Bento Santiago passa ao leitor para obter certos efeitos, e as duas perguntas básicas desse romance magistral são: Que efeitos o velho Bento Santiago quer provocar em seu leitorado? Com quais propósitos?

3. Vi o princípio #1 pela primeira vez no livro Style: Toward Clarity and Grace, do linguista americano Joseph M. Williams. (Pode baixá-lo aqui.) Por muitos anos Williams conduziu experimentos na Universidade de Chicago para entender que problemas um leitor tem de resolver ao começar uma nova frase ou um novo parágrafo, e o que faz esse leitor classificar o texto como “fácil de entender” ou como “elegante”. Com base no que descobriu, Williams descreveu em detalhes os princípios pelos quais um redator criterioso compõe o texto de modo a ajudar seu leitorado a resolver tais problemas. Se o leitor deste blogue tem a vontade de um dia escrever com clareza e graça, ou simplesmente de se transformar num intérprete competente do texto alheio, pode dedicar umas semanas ao estudo de Style — não vai se arrepender.

4. Dica de revisão. Você pode converter muitos verbos em substantivos ou adjetivos, e vice-versa. Exemplos: escorregar — escorregamento, escorregadio; desmonetizar — desmonetização, desmonetizado; sortear — sorteio, sorteado; usurpar — usurpação, usurpado. Assim, quando escrever uma frase cheia de substantivos, adjetivos, e de verbos de ligação, desconfie: provavelmente, é porque a primeira palavra que te ocorreu ao escrever foi um substantivo ou adjetivo em vez de um verbo — fenômeno comum. (Exemplos de verbos de ligação: ser, estar, permanecer, ficar, tornar-se, andar, parecer, virar, continuar, viver. Em geral, são fórmulas verbais que você pode substituir pelo sinal = de igual.) Suponha que escreva:

“A sinalização dessa operação é uma luz vermelha para que haja destaque à possibilidade de acidentes.”

Sublinhe os substantivos e adjetivos:

“A sinalização dessa operação é uma luz vermelha para que haja destaque à possibilidade de acidentes.”

Converta os substantivos e adjetivos em verbos ou fórmulas verbais; seja criativo:

Sinalização — sinalizar. Operação — operar. Luz — iluminar. Vermelha — avermelhar, banhar com luz vermelha. Destaque — destacar. Possibilidade — tornar possível, possibilitar. Acidentes — acidentar-se, ferir-se, provocar um acidente.

Pergunte a si mesmo quais são os verdadeiros personagens da história: Quem está sinalizando? Quem está operando? Quem está iluminando? Quem está destacando? Etc.

Quando descobrir o verdadeiro personagem, ou personagens, conte a história com o esquema personagem = sujeito, ação = verbo:

“João decidiu sinalizar o início dessa operação com uma luz vermelha para que o funcionário não se iluda quanto ao risco de acidentes.”

Com a prática, vai realizar todo esse procedimento rapidamente, no intervalo entre imaginar o que gostaria de dizer e escolher as palavras, de modo que escreverá uma frase quase perfeita na primeira tentativa, sem passar pelo estágio de escrever uma frase excessivamente substantivada, ou adjetivada, e de revisá-la. E daí descobrirá que o verdadeiro desafio não é datilografar as palavras corretas, propriamente, mas sim saber das coisas — e excitar a imaginação.

5. Por que esta postagem num blogue sobre matemática, filosofia, ciência? Acho que Alfred North Whitehead (matemático e filósofo) estava no caminho certo quando publicou, em 1929, o livro Process and Reality: An Essay in Cosmology: É pouco provável que a realidade seja feita de coisas que permanecem as mesmas ao longo do tempo, como átomos; é pouco provável que seja feita de fatias infinitesimais de realidade, que se sucedem rapidamente, como num filme; é mais provável que seja feita de processos, isto é, a menor unidade que compõe a Natureza, se houver uma menor unidade, não é o átomo, ou qualquer coisa estática semelhante a um átomo, mas é um processo. Talvez seja uma infinidade de processos, como num fractal. Pois não importa se o Agente olha a Natureza de longe ou de perto, com um telescópio ou um microscópio, ela é sempre dinâmica; ela nunca está quieta, mas está sempre se mexendo, sempre mudando, sempre ativa; de perto ou de longe, parece que ela é sempre uma coleção imensa de processos interligados entre si. Portanto, escreveu Whitehead, o caráter dinâmico da Natureza deve ser o principal foco de qualquer descrição filosófica da realidade.

(Agente = homem, mulher, criança, máquina inteligente.)

Ora, o principal método pelo qual o Agente se engaja com a realidade é a linguagem. Logo, a prática com uma linguagem no formato personagem = sujeito, ação = verbo dá ao Agente uma maior capacidade de identificar processos que constituem a realidade (personagem), e o que tais processos realizam (ação), e dá também ao Agente uma melhor capacidade de comunicar suas descobertas na forma de substantivos e verbos tão vívidos quanto possível. Em outras palavras, ao usar o esquema personagem = sujeito, ação = verbo, o Agente obtém um grau maior de correspondência entre sua linguagem e a realidade; ou obtém um morfismo de melhor qualidade. (Nos casos ideais, obtém um isomorfismo.) Por último, visto que objetos abstratos são procedimentos, a prática com uma linguagem no formato personagem = sujeito, ação = verbo dá ao Agente a capacidade de se relacionar de modo mais produtivo com livros sobre ideias abstratas e complicadas, como livros de matemática, filosofia, e ciência, sem os quais é impossível descrever adequadamente o caráter dinâmico da Natureza. A coisa toda vira um ciclo, ou, melhor dizendo, um processo recursivo.

Se gostaria de saber mais sobre filosofia processista, recomendo um livro do filósofo alemão Nicholas Rescher, Process Philosophy: A Survey of Basic Issues: Pittsburgh, University of Pittsburgh Press, 2000.

6. Usei com frequência “verbo” para denotar “locução com função de verbo”, e “sujeito” para denotar “locução com função de sujeito”. Essa decisão deixa as frases mais simples, pois me permite dizer que “tanto fizeram que me obrigaram” é um verbo.

 

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