O norte a oeste do norte

Para usar uma bússola, o caminhante precisa saber que a agulha aponta para o norte magnético, que é diferente do norte geográfico.


Brasileiros não costumam usar os pontos cardeais como referência. Faça o teste quando for jantar na casa de um amigo: pergunte-lhe para que lado fica o norte ou o sul. É provável que não saiba. Muito paulistano não sabe que Santo André fica bem ao sul de São Paulo, e muito turista nunca parou para pensar que, se ele dirige o carro ao longo do litoral brasileiro, e se o mar está à esquerda, então viaja para o sul.

Esse traço cultural deixa a bússola com um ar de mistério. Mas ela é tão simples que pode ser construída com materiais caseiros: use um ímã para magnetizar uma agulha, espete a agulha num disco de rolha, ponha a rolha para boiar no potinho com água. Um dos lados da agulha vai apontar para o norte magnético.

Pinte o sul de vermelho. O centro do planeta Terra funciona como um ímã gigante, e envolve todo o planeta com um campo magnético. Pegue dois ímãs e faça o teste: o polo norte de um deles vai repelir o polo norte do outro e, ao contrário, vai atrair o polo sul do outro. A agulha da bússola é um ímã; o campo magnético da Terra vai girá-la sobre o eixo, até que o polo sul da agulha aponte para o polo norte magnético da Terra, e o polo norte da agulha aponte para o polo sul magnético da Terra. Basta pintar o polo sul da agulha com alguma cor berrante, tipo vermelho. Pronto. A ponta vermelha da agulha aponta para o norte magnético.

O verdadeiro norte. Dois probleminhas, contudo. O polo norte magnético não coincide com o polo norte geográfico: o magnético está a uns 1.600 quilômetros de distância do geográfico. Além disso, o campo magnético da Terra não segue em linhas retas do polo sul em direção ao polo norte: ele faz curvas, e às vezes faz curvas acentuadas. Em alguns lugares, a curva é tão acentuada que o norte magnético aponta para o oeste geográfico; é o caso de algumas ilhas do Pacífico. Então, o caminhante precisa conhecer a declinação magnética do lugar em que vai andar: é a diferença, em graus, entre o polo norte magnético e o polo norte geográfico.

Numa boa bússola, existe um mecanismo para compensar a declinação magnética: esse mecanismo gira o mostrador da bússola (embaixo da agulha), mas não gira as linhas de guia da agulha. Se você estiver em São Paulo (SP), onde o polo norte magnético está a 21,43 graus a oeste do polo norte geográfico, use o mecanismo para girar o mostrador 21,43 graus à direita. Assim, quando alinhar a agulha com as linhas de guia da agulha, as linhas norte-sul do mostrador vão ficar alinhadas com o norte-sul geográfico; se a seta longa da bússola estiver alinhada com as linhas norte-sul do mostrador, a seta longa da bússola vai mostrar o sentido, ou azimute, do norte geográfico. (Veja o desenho mais abaixo, acima da seção “Para onde ir?”) Com uma bússola compensada para o lugar em que vai usá-la, você só tem de se preocupar com alinhar a agulha da bússola e as linhas de guia da agulha, pois daí as linhas norte-sul do mostrador, embaixo da agulha, ficam automaticamente alinhadas com o norte-sul geográfico.

DIFERENÇA ENTRE O NORTE MAGNÉTICO E O GEOGRÁFICO

Cidade

Declinação magnética

Notação

São Paulo

21,43 graus a oeste

–21,43º

Brasília

21,68 graus a oeste

–21,68º

Manaus

15,98 graus a oeste

–15,98º

Anchorage (Alasca)

15,78 graus a leste

+15,78º

Obs.: Como compensar uma declinação magnética: se for positiva (a leste), gire o mostrador da bússola à esquerda; se for negativa (a oeste), gire o mostrador à direita.

Como ir e voltar. É fácil se perder num lugar em que não há ruas, prédios, placas de trânsito — como numa trilha na Chapada Diamantina ou num barco em alto mar. É fácil mudar de direção sem perceber e andar em círculos. Use a bússola para evitar isso. É o jeito mais fácil de usá-la, e nem é necessário compensar a declinação magnética.

Ponha seu relógio de pulso para despertar a cada 20 minutos, por exemplo. A cada aviso do relógio, alinhe o mostrador da bússola com a ponta vermelha da agulha e anote o azimute (o sentido para onde você está indo). Vamos supor que anotou 40 graus no começo da caminhada, 120 graus 20 minutos depois, e 340 graus 40 minutos depois. Para voltar, é só fazer o caminho ao contrário em 180 graus: ande 20 minutos com azimute de 160 graus (340 – 180), depois 20 minutos com 300 graus (120 + 180), e por último 20 minutos com azimute de 220 graus (40 + 180). Você deve chegar ao ponto de onde saiu. (Com a bússola em mãos, nem precisa fazer contas: basta voltar no sentido oposto do azimute com que veio.)

Orientar um mapa. Um jeito ótimo de usar a bússola: orientar o mapa, para que as coisas no mapa estejam alinhadas com as coisas à sua volta. Use uma bússola compensada para a declinação magnética do lugar. Abra o mapa no chão ou no colo, e ponha a bússola sobre o mapa. Alinhe as linhas de guia do mostrador (no sentido norte-sul) com as linhas verticais do mapa, de modo que o norte das linhas de guia coincida com o norte do mapa. Gire o mapa (com a bússola em cima) até que o norte da agulha esteja corretamente alinhado com as linhas de guia da agulha. Pronto: agora o norte do mapa está virado para o norte geográfico, e tudo o que você vê no mapa está alinhado com o que vê à sua volta. É um bom jeito de identificar picos, vales, rios, cachoeiras.

Tendo um mapa, para onde ir?

Para onde ir? Você tem um mapa e tem uma bússola já compensada. Você tem de ir para um ponto B que não está visível: um lago distante, uma cachoeira. (Veja a figura acima.) Faça assim: [1] Ponha a borda longa da bússola sobre o mapa, de modo que a seta longa da bússola esteja alinhada com a linha que liga o ponto A em que você está ao ponto B para o qual pretende ir. (Obviamente, você tem de saber o ponto A em que está.) [2] Gire o mostrador da bússola até que as linhas norte-sul do mostrador estejam alinhadas com as linhas norte-sul do mapa, e o norte do mostrador aponte para o norte do mapa. [3] Segure a bússola à sua frente. Gire o corpo até que o norte da agulha esteja corretamente alinhado com as linhas de guia da agulha. A seta longa da bússola vai apontar o azimute correto, ou seja, o sentido do ponto B. Escolha um marco qualquer no sentido do azimute, um marco bem visível (por exemplo, uma árvore), e ande até lá. Ao chegar lá, escolha outro marco no sentido do azimute desejado. E assim vá até chegar ao ponto B. {Fim}


Observações:

1. Publiquei essa matéria pela primeira vez na revista Cálculo: Matemática para Todos, edição 6, junho de 2011, pág. 12. A versão que acabou de ler foi revista e ligeiramente reescrita. Atualizei as declinações que menciono na matéria; em 2011, a declinação de Anchorage, por exemplo, era de +18,7º.

2. Note que as bússolas são construídas para funcionar por hemisfério: bússolas para o hemisfério norte não funcionam no sul, e vice-versa. Existem bússolas que funcionam no mundo todo, e são mais caras, mas acho que o preço mais alto vale a pena.

3. A ilustração acima da seção “Para onde ir?” foi feita com base num documento da Suunto, que é um fabricante competente de bússolas.

4. Quando estiver caminhando e perceber que vai perder a visibilidade (por exemplo, porque um nevoeiro se aproxima), anote imediatamente o azimute. Quando o nevoeiro chegar, será tarde demais.

5. Esta postagem pode ser usada para ilustrar uma ideia importante: quando conhecemos uma característica da Natureza, como o funcionamento do campo magnético da Terra, podemos usá-la para fins humanos, como a navegação; mas também podemos usá-la como fonte de conjecturas para explicar outros fenômenos. Por exemplo, dizem que aves migratórias usam o campo magnético da Terra para se orientar. Se isso é verdade, então seu cérebro deve realizar certas operações semelhantes às que realizamos para nos orientar com uma bússola. E, se isso é verdade, então podemos testar as conjecturas x, y, z. Em resumo, quanto mais uma pessoa sabe, mais tem condições de imaginar explicações para coisas as quais ainda não têm boas explicações.

 

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